Um Breve Paralelo Entre o Rock Inglês e Brasileiro

A primeira arte não tem essa classificação numérica à toa. A música está presente em todas as culturas desde o início da humanidade, independente das diversas maneiras que essa origem é contada ela sempre está lá.

 Transcendente, não só entre o tempo, mas entre as culturas, a música foi a primeira responsável pelas diversas aculturações de nossa história, foi com ela que o mundo pode finalmente conhecer as principais características de diversas civilizações sem precisar viajar pelo mundo.

Foi também a música a responsável pelo início da globalização, presente no primeiro grande objeto de comunicação em massa, o rádio, a música começou a penetrar as mais diversas culturas, mesmos as sociedades mais distantes culturalmente foram afetadas por música estrangeira, derrubando barreiras linguísticas, étnicas, culturais, geográficas e até de animosidade entre diferentes povos.

Com o Brasil não foi diferente, muito já se ouvia da música estrangeira nas rádios brasileira no início do século XX, o mesmo acontecia na via contrária, com grandes artistas como Carmen Miranda, fazendo grande sucesso tanto no Brasil como nos Estados Unidos.

Mas foi a Inglaterra que surgiu com o primeiro ritmo que iria tomar o mundo. Fortemente influenciados pelas batidas eletrônicas provenientes da cultura afrodescendente americana e seus antepassados, Os Beatles surgiram para dominar todas as culturas e rádios de todo o planeta música.

Os jovens John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, quebravam regras e com um som considerado forte e transgressor para sua época, levava alegria e esperança para uma geração marcada pelas sombras da segunda grande guerra. Então com músicas que falavam de alegria e amor dominaram o mundo:

Twist and Shout – The Beatles

Claro que este ritmo rápido e gostoso de dançar tomou conta das terras tupiniquins, assim inspirando e influenciando vários jovens brasileiros a, assim como os ídolos ingleses, criarem suas próprias baladas sobre o amor com os poderosos metais do Rock and Roll, como o pioneiro Erasmo Carlos e seu jeito despojado.

Vem Quente Que Eu Estou Fervendo – Erasmo Carlos

O rock tomou proporções nunca antes vistas na cultura mundial, presente tanto dentro dos pubs ingleses, como nos mais simples bares japoneses, o rock tomava conta de toda a sociedade. O Brasil já tinha se rendido ao ritmo, mesmo que as gerações mais velhas vissem a manifestação artística como representante da desordem e baderna, ou mesmo uma influência negativa para os cultos religiosos, o rock prevaleceu e o jeito foi absorvê-lo dentro das mais diversas culturas.

Logo grandes bandas como Rolling Stones, Black Sabbat, Deep Purple, Pink Floyd, entre outras foram surgindo no cenário musical mundial. Agora o ritmo não cantava somente sobre o amor, mas sobre qualquer sentimento que a juventude inglesa do pós-guerra pudesse sentir.

A década de 70 foi marcada pela consolidação do estilo musical, o início das diversas subdivisões, com fortes influências da eminente Guerra Fria, as ambições espaciais da humanidade e todas as grandes revoluções coloniais existentes ao redor do globo, o bom e alto som do Led Zeppelin podia ser ouvido entre a queda das diversas capsulas de pólvora e as frequentes marchas fúnebres que marcaram esta década e tentaram de toda forma arrancar a esperança de um mundo melhor que crescia na juventude setentista.

Rock And Roll – Led Zeppelin

O casamento entre esperança e desesperança não marcou apenas o rock inglês, mas também o brasileiro, alheio aos problemas internacionais, o Brasil vivia em seu interior a pior e mais sangrenta década de sua história, com a ditadura em seu auge, os anos 70 foram marcados por canções metafóricas que falavam sobre alegria e servidão ao governo em interpretações rasas, mas que marcavam os protestos e revolta dos artistas brasileiros em suas entrelinhas.

Esses movimentos artísticos tinham tamanho impacto que até uma cartilha de proibição foi impressa pelo governo e entregue aos diversos artistas, no intuito de proibi-los de usar palavras que “ofendessem” o estado totalitário brasileiro.

Foi com esse cenário que o discurso de um jovem baiano chegava as rádios brasileiras de forma alegre e crítica, enganando os fiscais da cultura e movimentando a sociedade setentista brasileira. O irreverente e sociocultural Raul Seixas nos presenteava com canções marcantes.

Vamos Alugar o Brasil? – Raul Seixas

O mundo já não se sentia ameaçado pela decadente Guerra Fria na década de 80, o discurso agora era outro, salvar o mundo das precárias condições que se encontrava a humanidade, fome e doença assolava a, agora importante, África, assim como as antigas sociedades socialistas.

Esse cenário gerou os grandes festivais musicais, com forte presença do rock, Live Aid, Rock in Rio, entre os diversos outros realizados ao redor do globo, foram os responsáveis pelas canções construídas para juntar multidões, com refrãos marcantes e de fácil assimilação aos não falantes das línguas originais, essas músicas caíram nas graças até daqueles que pouco se identificavam com o rock.

Com certeza a banda de maior influência dessa década foi o Queen, com seu vocalista Freddie Mercury e suas marcantes apresentações em diversos festivais, a banda emplacou diversos hits considerados verdadeiros hinos sem bandeira ao redor do mundo. Seu maior sucesso falava sobre a vida sofrida de um homem comum, uma letra triste, mas que dizia muito do homem que acompanhou toda a trajetória do rock até aqui.

We Will Rock You – Queen

O Brasil em 1985 se libertava das correntes militares e se colocava novamente dentro do cenário mundial da música, com o grande festival Rock in Rio realizado neste ano, o mundo pôde ver todas as transgressoras bandas que surgiram como voz do povo diante das injustiças da ditadura.

O rock nacional foi vítima do punk nascido nos pubs ingleses, assim composições rápidas e rebeldes marcaram o início de uma das bandas mais influentes da história do país, a Legião Urbana. Suas letras provocativas e politicamente engajadas representavam a sociedade que brigaria pelas Diretas Já e por todos os movimentos políticos presentes nesta década e no início da próxima.

Que País é Esse? – Legião Urbana

Os anos 90 vivia um momento de relativa paz política dentro dos parâmetros possíveis para a nossa história, a Inglaterra era definitivamente um lugar muito bom para se estar nesta década. Assim os jovens noventistas pareciam estrelas apagadas diante das grandes constelações rockstar surgidas nas décadas anteriores.

Apesar desta tranquilidade a música ainda produziu e exportou muito da balada rebelde, mesmo perdendo seu posto de número 1 para o divertido e despreocupado pop. Com ritmo ameno e letras remetendo às baladas de amor do início do rock, mas com pitadas de angústia e desilusões amorosas surgiu o Oasis, ícone dessa geração acomodada e preocupada apenas com o próximo coração partido.

Wonderwall – Oasis

O Brasil esquecera todo o engajamento político dos anos anteriores no decorrer da década de 90, um cenário político finalmente estável com o lançamento do Plano Real, além das diversas reformas promovidas em favor da população, o rock foi esquecido pela população, afinal, as letras socialmente engajadas já não eram necessárias, o governo era justo e todos éramos livre.

Liberdade essa que começou a ser explorada não só no âmbito político, mas também nas mais diversas facetas do ser humano, proporcionando assim, diversos novos estilos musicais no gosto do povo, como o Sertanejo, Pagode, Axé, entre outros, para o rock bastou fazer paródia disso tudo, entrar no ritmo irreverente e fazer piada de todo mundo.

Nascia assim o maior sucesso relâmpago deste país, Mamonas Assassinas. Os jovens de Guarulhos, interior de São Paulo dominaram o país como nunca antes feito na história, suas músicas eram bradadas por crianças, jovens, adultos e idosos, mas sua trajetória foi curta, durou pouco mais de 180 dias, até a tragédia que os levou tão rápido quanto haviam surgido. O país chorou, mas suas canções marcaram o povo e são lembrados até hoje…

Vira-Vira – Mamonas Assassinas

O novo milênio era sinal de esperança e grandes mudanças, o rock fazia sucesso, mas não mais bebia de gloriosas fontes do passado, estavam relegados ao nicho que ainda curtia o gênero musical, com poucas bandas conseguindo ultrapassar as barreiras do sucesso mundial.

O rock necessitava mudar, mudanças essas difíceis de serem aceitas por aqueles que beberam do melhor e mais marcante movimento musical da história até então. Ironicamente aqueles que tinham lutado para que a sociedade mundial aceitassem o diferente, estavam tendo dificuldade em aceitar que o diferente novamente tinha mudado…

Foram com esses questionamentos que surgiram bandas com o The Verve, cantando sobre essa confusa identidade perdida dentro da recente história.

Bitter Sweet Symphony – The Verve

O Brasil continuou a aceitar o rock, mas este teve que aprender a dividir espaço com os mais diversos estilos, já não era tão querido assim, mas se encontrava em iniciativas como o canal MTV, ou programas adolescentes dentro da programação diária da TV aberta.

Muitos jovens talentos apareceram, como Detonautas, Charlie Brown Jr., Pitty, e cada um marcou significantemente a vida de alguns brasileiros, mas nada tão grande para mover multidões como no passado. Hoje o rock ainda vive, muitos ainda o utilizam como bandeira política, ainda outros apenas têm nele o refúgio de suas vidas monótonas, mas o rock com certeza garantiu um imenso capítulo na história da humanidade.

Admirável Chip Novo – Pitty

Gounford

Gounford

Amante do cinema, viciado em games, entusiasta de séries e escravo dos quadrinhos e livros... Ou seja, procura-se emprego para sustentar tudo isso!
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