O Monstro Interior

Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres, dez diademas e, sobre as cabeças, nomes de blasfêmia. E adoraram o dragão porque deu a sua autoridade à besta; também adoraram a besta dizendo: quem é semelhante à besta? Quem pode lutar contra ela?

Apocalipse de João, capítulo 13, versículo 1-4

 

Qual é o peso de nossas ações? O que fazer quando colocados em situação de escolha entre fazer o que é certo ou fazer o que somos influenciados a fazer? Em que momento saímos do ponto do que é certo para nós, para adentrarmos no campo do que é correto para outros? Qual é o peso e o valor de uma vida humana? Questionamentos como estes, e muitos outros, com certeza fizeram parte dos pensamentos do doutor Kenzo Tenma, personagem central da trama Monster, obra de Naoki Urasawa publicado entre 1994 e 2001.

A história tem como seu pano de fundo uma Alemanha do pós-Segunda Guerra Mundial e tem como protagonista doutor Tenma, que é um excepcional cirurgião designado a tratar o ferimento causado por uma bala no crânio de um garotinho. No entanto, seu superior no hospital sugere a ele, que ao invés de tratar do garoto, vá imediatamente participar da operação de uma grande figura política da região. Nosso protagonista então tem um duro dilema pela frente: seguir a ética médica e cuidar do paciente com maiores problemas, ou seja, do garoto, ou seguir uma diretriz dada pela instituição da qual ele trabalha e assim cuidar do político. A escolha de Tenma foi a primeira, e suas consequências de curto e longo prazo são avassaladoras. Quais critérios ele levou em consideração antes de tomar esta decisão? Só lendo a obra para saber, porém, posso adiantar que muitas pessoas são movidas por determinadas bandeiras, apenas por carregarem dentro de si um forte sentimento de culpa.

A vida do cirurgião se transformou de uma maneira surpreendente. Misteriosas mortes do alto escalação do hospital ocorrem, e as suspeitas recaem sob Tenma, já que que a situação de desavença entre ele e os diretores veio a público. Entra em cena a figura de Lunge, detetive altamente qualificado e determinado a prender Dr. Tenma utilizando todas as suas habilidades em farejar pistas, que em alguns momentos lembram as de Sherlock Holmes. Lunge assim como outros investigadores dentro da história, tentam jogar alguma ordem dentro do clima absurdamente caótico causado por indivíduos ardentes por destruição que constituem o universo de Monster.

Kenzo descobre que o garoto que ele havia salvo é/era um psicopata chamado Johan Liebert – e aqui podemos abordar a ideia de “monstro”, que intitula tanto o mangá quando a animação. A origem da palavra monstro nos remete a “algo deformado”, que deve ser exposto, e o termo em si é destinado a criaturas que podem até ter aspectos humanoides, mas são sempre evidenciadas como seres que não são humanos. “Monster” utiliza dessa premissa, mas insere um humano como um monstro. Não apenas um, mas diversas facetas em muitas personagens demonstram níveis de monstruosidade, isso não só em pessoas que são abertamente psicopatas, mas seres comuns, que quando postos em situações complicadas se apresentam com verdadeiras bestas.

Para quem já leu “O Pequeno Príncipe” de Saint Exupéry deve se recordar da célebre frase: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Doutor Kenzo Tenma seguiu este pensamento ao extremo, uma vez que após salvar o garoto, precisou encarar uma jornada para deter Johan e tentar provar sua inocência perante os assassinatos. Tenma é dotado de um senso de justiça fortíssimo, e após iniciar sua jornada em busca de respostas se depara com tantos personagens recheados de histórias emblemáticas, muitos deles com sérios problemas e transtornos, ou ligações diretas com Johan, e mesmo tendo seus próprios problemas, o doutor ainda sim fica à disposição para ajuda-los sem esperar nada em troca.

Monster é uma experiência ímpar entre as histórias em quadrinhos japonesas, é uma história que aponta o ser humano exatamente como é: um recipiente que pode ser enchido de elementos maldosos, cruéis e brutais, ao passo em que também pode ser preenchido com bondade e gentileza, ou, com ambas substâncias. Naoki Urasawa consegue trabalhar temas como psicopatia, violência infantil, homicídio, ética, discriminação social, bem e mal, arrependimento, vingança e muitos outros com bastante profissionalismo. Caso tenha a oportunidade, leia que com toda a certeza será uma leitura bastante prazerosa. Ou assista, afinal, a animação é extremamente fidedigna ao mangá.

Deixo abaixo uma breve história retirada do mangá e uma indicação de livro. 😉

 

O Monstro sem Nome

Há monstros. E alguns precisam de um nome.

Era uma vez um monstro sem nome. O monstro morria de vontade de ter um nome. Por isso ele decidiu partir em uma jornada para encontrar um nome. Mas o mundo era um lugar muito grande. Por isso o monstro se dividiu em dois e partiu em sua jornada. Um foi para o leste, e o outro para o oeste. O monstro que foi para o leste chegou a uma vila. E lá encontrando um ferreiro, disse a ele:

– “Senhor ferreiro, por favor me dê seu nome”.

– “Não dá para dar um nome a alguém”. Retrucou o ferreiro.

– “Se me der o seu nome, eu vou pular para dentro da sua barriga e em troca vou te deixar muito forte”. Disse o monstro.

– “Sério? Vai me deixar mais forte? Tudo bem então, pode ficar com o meu nome!”

E assim o monstro pulou para dentro da barriga do ferreiro. O monstro então se tornou Otto, o ferreiro. E Otto se tornou o homem mais forte da vila.

– “Olhem para mim! Olhem para mim! O monstro dentro de mim já cresceu bastante.” Disse Otto.

E o monstro faminto devorou Otto de dentro para fora. E assim ele voltou a ser um monstro sem nome. E o monstro pulou para dentro da barriga de Hans o sapateiro, mas voltou a ter fome. Assim ele voltou a ser o monstro sem nome. E o monstro pulou na barriga de Thomas o caçador, mas de novo voltou a ser um monstro sem nome. O monstro então foi a um castelo procurar um nome maravilhoso.

– “Se me der o seu nome, eu vou te deixar muito forte”. Disse o monstro a um jovem príncipe.

– “Se curar minha doença, eu te dou o nome”.

E assim o monstro pulou para dentro da barriga do garoto. E o garoto ficou muito saudável. O rei ficou encantado com isso.

– “O príncipe está bem, o príncipe está bem”. Gritou o rei.

O monstro gostou do nome do garoto. Ele gostou de morar no castelo, e mesmo com fome não fez nada. Todos os dias ele sentia fome, mas mesmo assim nada fez. Mas um dia ele ficou com fome demais.

– “Olhem para mim! Olhem para mim! O monstro dentro de mim já cresceu bastante.

E então o garoto comeu o rei e todos os súditos. Um dia, o monstro encontrou o monstro que foi para o oeste.

– “Eu tenho um nome, um nome maravilhoso!”, disse ele.

– “Você não precisa de um nome, pode ser feliz mesmo sem ele”. Respondeu o monstro que foi para o oeste. “Porque nós somos monstros sem nome”, completara.

E assim o garoto comeu o monstro que foi para o oeste. Mas mesmo tendo finalmente encontrado um nome, não havia ninguém para chama-lo por ele. Mas Johan era realmente um maravilhoso nome.

 

Para quem tem interesse na temática psicopatia, indico a obra Sem Consciência de Robert Hare, que apresenta em detalhes o modus operandi de muitos psicopatas, suas características, trações de personalidade (ou falta dela) dos mais agressivos que cometem assassinatos como é o caso de Johan, até os mais comuns, que não matam abertamente suas vítimas, mas que são capazes de ir desnutrindo a vida delas aos poucos, até o ponto em que se cansam e partem para novos alvos.

Erick Silva

Erick Silva

Vegetariano, apaixonado por leitura e colecionador de palavras. É formado nas humanidades da História, mas que hoje busca desenvolver sistemas.
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  • Daniel Mujica

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