A Garota Dinamarquesa

Por que eu mereço tanto amor?

 

Essa frase dita por Lili Elbe resume bem a história retratada neste glorioso longa-metragem de Tom Hopper (O Discurso do Rei).

A Garota Dinamarquesa conta a história de Einar Mogens Wegener (Eddie Redmayne), a primeira transgênero a fazer a cirurgia de readequação de sexo. Até então vivendo como o sexo de nascimento Einar casou-se com Gerda (Alicia Vikander), ambos pintores e moradores de Copenhagen.

O filme retrata a difícil batalha interna entre Einar e Lili, assim como sua transformação e aceitação durante os anos de sua vida adulta, junto a isso mostra também o sofrimento e o apoio dado por sua esposa Gerda, que diferente do que os médicos pregavam, nunca acreditou que seu marido estivesse doente, muito menos que devesse desistir de seu sonho.

A obra discute bem a questão de gênero, mostrando o lado que poucos conhecem dessa batalha interna contra o próprio corpo que pessoas como Lili vive. Traz para o cinema uma luz para um futuro entendimento e aceitação de pessoas que ainda sentem dificuldade em entender que cada ser humano é único e que possui sentimentos que muitas vezes são avessas as leis pregadas pelos homens e até pela natureza.

Eddie dá mais um show de interpretação, em seus pequenos gestos vemos cada fagulha de Einar e Lili digladiando-se internamente, difícil não compará-lo com seu último papel como Stephen Hawking, que através exatamente de sua perfeita linguagem corporal rendeu-lhe uma estatueta do Oscar. Em um ano difícil, com outras ótimas atuações, Eddie talvez seja o maior merecedor do prêmio, mas que deve lhe escapar exatamente por já ter ganho um ano antes.

Já Alicia surpreende, como terceira opção para o papel, parece que ele foi escrito para ela, sua firmeza e angústia ao retratar Gerda dá ao espectador um choque de realidade, mostrando que o amor deve vir acima de tudo, e que a aceitação não deve vir forçada, mas sim compreendida. A atriz não deixa a desejar em nenhum momento, levando o filme ao lado de Edddie, muitas vezes até ofuscando o protagonista. A garota que não era para estar neste papel talvez leve a estatueta, pois seu papel é edificante e marcante.

O filme foi criticado por grupos de defesa de gêneros por escolher um cisgênero (pessoa com a aceitação do sexo de nascimento) para fazer o papel principal, algo talvez controverso, pois tem-se a ter o ator como um ser acima destas questões, pois a arte de atuar pode fazer o ator qualquer ser retratado pela arte, independente de sexo, gênero, credo e até raça. Talvez a maior crítica fica pela não retratação da história idêntica ao ocorrido, mas a adaptação coube ao filme e não deixou a desejar em momento algum, talvez até desperte a vontade dos espectadores de ir atrás dos detalhes não retratados em tela.

Duas outras estatuetas são disputadas pelo filme, a de Designer de Produção, que aliás faz um ótimo trabalho mostrando uma Paris e uma Copenhagen do começo do século XX, e a de Melhor Figurino, que é perfeitamente trabalhado, principalmente nos figurinos usados por Eddie quando retratando Lili. Algo que não foi lembrado no Oscar foi a trilha sonora, talvez por falta de espaço (somente cinco indicados), mas é belíssima e dá o tom de reflexão exigido pelo filme.

Um filme que mostra mais do que o comum e que bate forte no espectador, tocando bem fundo na ferida que existe na sociedade, e levando-o a pensar um pouco no próximo e quem sabe até ajudando transgêneros a dar aquele que talvez seja o passo mais difícil de suas vidas. Talvez depois de assistirmos esta linda obra consigamos responder para nós mesmos algo parecido com o questionamento de Lili: será que merecemos tanto amor?

A Garota Dinamarquesa
Título Original: The Danish Girl
Ano: 2015
Direção: Tom Hopper
Duração: 120 min.
Nacionalidade: EUA, Reino Unido, Alemanha
Gênero: Drama | Biografia
Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Ben Whishaw
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Amante do cinema, viciado em games, entusiasta de séries e escravo dos quadrinhos e livros... Ou seja, procura-se emprego para sustentar tudo isso!
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